Domingo _4 :: UM LADRÃO NO TELHADO

 

Domingo _4 :: UM LADRÃO NO TELHADO, Derek Cianfrance, M/12, 126'
Com Channing Tatum , Ben Mendelsohn , Juno Temple , Peter Dinklage , Kirsten Dunst

Baseada num caso real, esta comédia acompanha Jeffrey Manchester (Channing Tatum), um ex-militar dos EUA que, após ser condenado por uma série de assaltos a restaurantes McDonald's – realizados entrando pelos telhados, o que lhe valeu o apelido de Ladrão no Telhado –, escapa da prisão e se esconde durante seis meses numa loja de brinquedos em Charlotte, Carolina do Norte. À medida que o isolamento se torna cada vez mais entediante, com saídas apenas com a loja vazia, Jeffrey encontra uma forma de se aproximar de Leigh (Kirsten Dunst), uma funcionária divorciada, por quem se acaba por apaixonar.
Com realização de Derek Cianfrance ("Blue Valentine", "A Luz Entre Oceanos" ou a série "I Know This Much Is True"), a partir de um argumento escrito em parceria com Kirt Gunn, este filme conta também com as actuações de Peter Dinklage, Juno Temple, Uzo Aduba e Ben Mendelsohn.

Um Ladrão no Telhado: a vida em franchise
Estamos bem, nós, espectadores, enquanto vemos o filme mais divertido de Derek Cianfrance.
Um plano geral de um subúrbio de cidade americana, a câmara a deslizar de uma bandeira bem reconhecível — aquela de “estrelas & listras”, azul, vermelha e branca – para um logótipo que também se identifica logo, o do McDonald’s. Assim começa Um Ladrão no Telhado, observação da vida americana não como uma la vie en rose, mas como uma “vida em franchise”: qual desses símbolos, a bandeira ou o logo, é realmente o grande emblema, a grande marca americana? E ainda nem falámos do Toys “R” Us.

Um Ladrão no Telhado: a vida em franchise
Até este nome, roofman, o título original, convoca uma ideia de franchise. E vem de um fundo verídico, tal como a história contada no filme de Derek Cianfrance: foi assim, “homem do telhado”, que a imprensa americana dos anos 2000 baptizou o ladrão misterioso que roubava McDonald’s (que ele conhecia bem, tinha trabalhado lá) imiscuindo-se pelos telhados e desaparecendo outra vez através deles. Foi apanhado e condenado a uma pena de prisão, mas fugiu e encontrou abrigo noutro paraíso “franchisado”, uma grande loja do Toys “R” Us, onde se escondeu e viveu clandestinamente durante meses.
Roofman podia ser um nome de franchise de super-heróis, e, no fundo, é isso que é esta personagem (interpretada, e muito bem, por Channing Tatum, com uma cena, bastante divertida, que é uma vénia autoparódica dos stripteases do Magic Mike que Tatum encarnou para Steven Soderbergh)um super-herói, espontâneo, amador, vindo do “povo”.
Dentro do Toys “R” Us (o décor que domina o filme, cheio do brilho warholiano da sociedade de consumo ready-made), o “homem do telhado” transforma os seus aposentos improvisados num posto de controlo para reparação de injustiças: os abusos laborais, que não são nada de especial, só um pouco injustos, um pouco bully, cometidos pelo gerente da loja (Peter Dinklage, a exacerbar, com evidente gozo, um autoritarismo de pequena estatura). O roofman faz, por exemplo, desaparecer linhas inteiras das folhas de Excel com os turnos do pessoal, assim libertando os funcionários de uma manhã inteira de sábado passada na loja, ou rouba brinquedos, jogos de consola ou pacotes de guloseimas para oferecer às crianças que conhece na sua vida civil (porque, como um super-herói autêntico, durante o dia tem uma vida civil, anónima, dissociada da sua condição de fugitivo e de benemérito das sombras).
É bastante divertido, sem se deixar infectar pela ironia (a ironia está nas situações, não no olhar de Cianfrance) que preside a tantos olhares sobre esta América rente ao chão e sobre estas personagens vindas das classes populares, empregados de lojas e fiéis frequentadores de igrejas (outros pensamentos de franchise: aqui, a “franchisação” da relação com Deus). A aproximação entre a personagem de Tatum e a de Kirsten Dunst, a empregada da loja que nem desconfia quem ele é realmente (como uma espécie de Clark Kent e Lois Lane de centro comercial), progressivamente entrando para a família dela, tomando o lugar do ausente pai das filhas adolescentes, configura outra ideia bem classicamente americana (falamos de cinema, de moral de cinema), a da segunda oportunidade. Que implica uma forma de redenção, e de aceitação: é por isso que, arrumado o imbróglio da clandestinidade e dos brinquedos, a última coisa que o roofman diz é “estou bem onde estou”.
Também estamos bem, nós, espectadores, enquanto vemos Um Ladrão no Telhado. O filme mais divertido de Derek Cianfrance (Blue Valentine, Como um Trovão) e o seu filme que mais se desenvolve numa linha “clara”, muito clássica, numa relação com as personagens e as situações — nunca as transforma em marionetas para um “discurso” nem deixa que entre elas e a câmara se interponha a sobranceria da exibição de um “ego de autor”. Não, é definitivamente, a sua vaidade de “artista” que Cianfrance aqui filma em primeiro plano, e isso é revigorante sobretudo quando se compara com o que se tem andado a celebrar, nos últimos meses, no grande Toys “R” Us de “autor” do cinema americano.

Sem comentários: