Domingo _18:: JUSTA

 

Domingo _18:: JUSTA, Teresa Villaverde M/12, 108'
Com Ricardo Vidal , Madalena Cunha , Betty Faria , Filomena Cautela

Em 2017, um incêndio deflagrou em Pedrógão Grande (distrito de Leiria), causando a morte a 66 pessoas e provocando enormes danos materiais, tornando-se o mais mortífero alguma vez registado em Portugal. O fogo, que teve início às 14h43 do dia 17 de Junho, na localidade de Escalos Fundeiros, alastrou-se rapidamente pelos concelhos de Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos. Ao cair da noite desse mesmo dia contabilizavam-se já 19 vítimas mortais, número que viria a ser actualizado nas horas e dias seguintes, atingindo 66 mortos e 253 feridos, além da destruição de cerca de 500 habitações e 50 empresas.
Este trágico evento abalou o país e deixou muitas famílias destroçadas. É neste contexto de devastação e dor que acompanhamos várias personagens no seu esforço em recuperar algum sentido de normalidade.

Justa: Teresa Villaverde na idade maior

Ouve-se tanto quanto se vê — a gravidade e a morosidade dos adultos, Betty Faria cega, Ricardo Vidal queimado, Filomena Cautela médica e sem-abrigo afectiva, e o grito e a rebeldia dos adolescentes.
Connosco desde 1991, desde A Idade Maior, Teresa Villaverde chega, com Justa, a partir de quinta-feira nas salas, ao seu momento mais radical. Porque é o seu filme mais despojado. É o ponto de maior simplicidade, de resplandecente minimalismo, enquadramentos e poética, como só ela, de uma intuição certeira. Coisa límpida, pulveriza arabescos. Mas é um filme que se ouve tanto quanto se vê — uma catatonia, entre o sotto voce ou a gravidade dos adultos, Betty Faria, cega, Ricardo Vidal, queimado, Filomena Cautela, médica e sem-abrigo afectiva, que comoventes figuras são!, e o grito e a rebeldia dos adolescentes, Madalena Cunha e Alexandre Batista, traumatizados que se revoltam contra aquilo que viram e ouviram.
É o mais belo mosaico do cinema da realizadora de 59 anos. É a sua idade maior, este filme.
O que tinha de lhes acontecer, às personagens, já lhes aconteceu antes de Justa começar: os incêndios florestais que devastaram Portugal em 2017 de que eles, como se diz, são "sobreviventes". Estão queimados, estão perdidos, estão sós, e como isso mete medo.
Não se atém, Justa, a contar a vida como uma sucessão de episódios. Naquilo que passou a individualizar as personagens, um tempo sem tempo, solidões que se amparam e se reconhecem, porque são solistas à procura da partitura e da orquestra, o filme observa-as e está junto delas; apenas — sem ponta de distância clínica; mas observá-los é a justa forma de fazer com eles Justa.
Teresa Villaverde apura o seu reposicionamento de realizadora que se salientou já logrado em Colo (2017), filme sobre a crise na família — mais profunda, e mais inominável, do que a "crise económica". O cinema refreava-se aí, impedido de transbordar à custa das personagens. Até mesmo na impressão difusa de "filme de terror", porque Colo também era um filme sobre um apartamento que parecia ter vida própria e autónoma dos seus ocupantes, Justa é um digno sucessor: um "horror de câmara", um horror mental, sugerido mas não escamoteado porque o fora de campo se enche de imagens de corpos a derreter no alcatrão, de caixões vazios e de cinzas.
Por reposicionamento queremos dizer que a realizadora se vem afastando do grito dilacerado de Três Irmãos (1994), de Os Mutantes (1998) ou de Transe (2006), em que o seu olhar coincidia com o dos jovens protagonistas, e, aproximando-se do mundo dos adultos — como já nos menos conseguidos Água e Sal (2001) e Cisne (2011) —, trabalha a contenção, a gravidade.
Os protagonismos são também difusos, esquinados, e não uma forma de reivindicação. Justa é o título e é o nome de uma personagem jovem interpretada por Madalena Cunha. Mas ela é tanto a protagonista, ou se o é também o são Elsa (Betty Faria), Mariano (Ricardo Vidal) — que vozes! — ou a médica (Filomena Cautela), quanto um espelho reflector da tragédia. Exactamente como em A Idade Maior, o outro expoente da filmografia da realizadora, em que o protagonista aparentava ser o miúdo Alex (Ricardo Colares), mas só na aparência porque, embora lhe coubesse o tempo de ecrã, o filme era narrado por Alex adulto, homem, e no mosaico de personagens cabia o mundo lunático de Bárbara (Maria de Medeiros) e a história de amor e morte dos pais de Alex, interpretados por Joaquim de Almeida e pela saudosa Teresa Roby.
Justa não "conta" nada. É um filme pós... Tudo se passou já. Mas é pleno de emoção. E de pedagogia. A forma como aqui se cuida de Ricardo Vidal, ele próprio um sobrevivente de um acidente que lhe deixou o corpo amputado e desfigurado pelo rosto, e assim se obriga gentilmente o espectador a lavar, educar o seu olhar, é notável.
Justa instala-se num tempo particular sem narração, musical, e é viciante. Queremos voltar a ouvi-los, Betty Faria, Ricardo Vidal, Filomena Cautela (que surpresa de actriz!)... e a Dança Húngara nº 4, de Brahms.

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