Domingo, 4 - UM LADRÃO NO TELHADO, Derek Cianfrance, M/12, 126'
Orig EUA
https://www.youtube.com/watch?v=fdepXXaed0I
Domingo, 11 - FOI SÓ UM ACIDENTE, Jafar Panahi, M/14, 105'
Orig Fra/Lux/Ira
https://www.youtube.com/watch?v=eAcrkvk2W1A
Domingo, 18 - JUSTA, Teresa Villaverde M/12, 108'
Orig POR
https://www.youtube.com/watch?v=KRmvbcuVAYQ
Domingo, 25 - ONDE ATERRAR, Hal Hartley, M/12, 75'
Orig EUA
https://www.youtube.com/watch?v=4tgY7q1o6Bc
Sessões semanais todos os Domingos às 16h00 e 21h30 no
Teatro Municipal de Vila do Conde.
Sócios: 6€/mês (acesso livre a todas as sessões)
Não Sócios: 4,5€/sessão
email: cineviladoconde@gmail.com
Domingo _4 :: UM LADRÃO NO TELHADO
Domingo _4 :: UM LADRÃO NO TELHADO, Derek Cianfrance, M/12, 126'
Com Channing Tatum , Ben Mendelsohn , Juno Temple , Peter Dinklage , Kirsten Dunst
Baseada num caso real, esta comédia acompanha Jeffrey Manchester (Channing Tatum), um ex-militar dos EUA que, após ser condenado por uma série de assaltos a restaurantes McDonald's – realizados entrando pelos telhados, o que lhe valeu o apelido de Ladrão no Telhado –, escapa da prisão e se esconde durante seis meses numa loja de brinquedos em Charlotte, Carolina do Norte. À medida que o isolamento se torna cada vez mais entediante, com saídas apenas com a loja vazia, Jeffrey encontra uma forma de se aproximar de Leigh (Kirsten Dunst), uma funcionária divorciada, por quem se acaba por apaixonar.
Com realização de Derek Cianfrance ("Blue Valentine", "A Luz Entre Oceanos" ou a série "I Know This Much Is True"), a partir de um argumento escrito em parceria com Kirt Gunn, este filme conta também com as actuações de Peter Dinklage, Juno Temple, Uzo Aduba e Ben Mendelsohn.
Um Ladrão no Telhado: a vida em franchise
Estamos bem, nós, espectadores, enquanto vemos o filme mais divertido de Derek Cianfrance.
Um plano geral de um subúrbio de cidade americana, a câmara a deslizar de uma bandeira bem reconhecível — aquela de “estrelas & listras”, azul, vermelha e branca – para um logótipo que também se identifica logo, o do McDonald’s. Assim começa Um Ladrão no Telhado, observação da vida americana não como uma la vie en rose, mas como uma “vida em franchise”: qual desses símbolos, a bandeira ou o logo, é realmente o grande emblema, a grande marca americana? E ainda nem falámos do Toys “R” Us.
Um Ladrão no Telhado: a vida em franchise
Até este nome, roofman, o título original, convoca uma ideia de franchise. E vem de um fundo verídico, tal como a história contada no filme de Derek Cianfrance: foi assim, “homem do telhado”, que a imprensa americana dos anos 2000 baptizou o ladrão misterioso que roubava McDonald’s (que ele conhecia bem, tinha trabalhado lá) imiscuindo-se pelos telhados e desaparecendo outra vez através deles. Foi apanhado e condenado a uma pena de prisão, mas fugiu e encontrou abrigo noutro paraíso “franchisado”, uma grande loja do Toys “R” Us, onde se escondeu e viveu clandestinamente durante meses.
Roofman podia ser um nome de franchise de super-heróis, e, no fundo, é isso que é esta personagem (interpretada, e muito bem, por Channing Tatum, com uma cena, bastante divertida, que é uma vénia autoparódica dos stripteases do Magic Mike que Tatum encarnou para Steven Soderbergh)um super-herói, espontâneo, amador, vindo do “povo”.
Dentro do Toys “R” Us (o décor que domina o filme, cheio do brilho warholiano da sociedade de consumo ready-made), o “homem do telhado” transforma os seus aposentos improvisados num posto de controlo para reparação de injustiças: os abusos laborais, que não são nada de especial, só um pouco injustos, um pouco bully, cometidos pelo gerente da loja (Peter Dinklage, a exacerbar, com evidente gozo, um autoritarismo de pequena estatura). O roofman faz, por exemplo, desaparecer linhas inteiras das folhas de Excel com os turnos do pessoal, assim libertando os funcionários de uma manhã inteira de sábado passada na loja, ou rouba brinquedos, jogos de consola ou pacotes de guloseimas para oferecer às crianças que conhece na sua vida civil (porque, como um super-herói autêntico, durante o dia tem uma vida civil, anónima, dissociada da sua condição de fugitivo e de benemérito das sombras).
É bastante divertido, sem se deixar infectar pela ironia (a ironia está nas situações, não no olhar de Cianfrance) que preside a tantos olhares sobre esta América rente ao chão e sobre estas personagens vindas das classes populares, empregados de lojas e fiéis frequentadores de igrejas (outros pensamentos de franchise: aqui, a “franchisação” da relação com Deus). A aproximação entre a personagem de Tatum e a de Kirsten Dunst, a empregada da loja que nem desconfia quem ele é realmente (como uma espécie de Clark Kent e Lois Lane de centro comercial), progressivamente entrando para a família dela, tomando o lugar do ausente pai das filhas adolescentes, configura outra ideia bem classicamente americana (falamos de cinema, de moral de cinema), a da segunda oportunidade. Que implica uma forma de redenção, e de aceitação: é por isso que, arrumado o imbróglio da clandestinidade e dos brinquedos, a última coisa que o roofman diz é “estou bem onde estou”.
Também estamos bem, nós, espectadores, enquanto vemos Um Ladrão no Telhado. O filme mais divertido de Derek Cianfrance (Blue Valentine, Como um Trovão) e o seu filme que mais se desenvolve numa linha “clara”, muito clássica, numa relação com as personagens e as situações — nunca as transforma em marionetas para um “discurso” nem deixa que entre elas e a câmara se interponha a sobranceria da exibição de um “ego de autor”. Não, é definitivamente, a sua vaidade de “artista” que Cianfrance aqui filma em primeiro plano, e isso é revigorante sobretudo quando se compara com o que se tem andado a celebrar, nos últimos meses, no grande Toys “R” Us de “autor” do cinema americano.
Domingo _11:: FOI SÓ UM ACIDENTE
Domingo _11:: FOI SÓ UM ACIDENTE, Jafar Panahi, M/14, 105'
Com Vahid Mobasseri , Ebrahim Azizi , Mariam Afshari , Hadis Pakbaten
Num bairro dos subúrbios de Teerão (Irão), Vahid, mecânico de automóveis e antigo prisioneiro político, leva uma vida tranquila até receber na sua oficina Eghbal, um cliente com uma prótese na perna resultante de um acidente. O som que aquele homem faz ao andar desperta em Vahid memórias terríveis: o mesmo ruído que ouvia, de olhos vendados, durante os interrogatórios e agressões a que foi repetidamente submetido. Convencido de que aquele homem foi um dos seus torturadores, o mecânico rapta-o e decide enterrá-lo vivo. Apesar da certeza inicial, não tarda a questionar-se se não estará a cometer uma injustiça. Em busca de provas irrefutáveis, procura então alguns dos antigos companheiros de cárcere que também sofreram às mãos do mesmo carrasco.
Em 2025, o iraniano Jafar Panahi – perseguido e preso pelo regime do seu país – tornou-se o primeiro cineasta a conquistar o prémio máximo nos quatro grandes festivais de cinema do mundo, através dos filmes "O Espelho" (1997), que recebeu o Leopardo de Ouro em Locarno; "O Círculo" (2000), distinguido com o Leão de Ouro em Veneza; "Táxi" (2015), vencedor do Urso de Ouro em Berlim; e este Foi Só Um Acidente, que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes.
O novo filme do iraniano Jafar Panahi, Foi Só um Acidente, ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes, o que o tornou num dos poucos realizadores a ter vencido os três mais importantes festivais de cinema do mundo, Berlim, Veneza e Cannes, juntando-se assim a Robert Altman, Michelangelo Antonioni e Henri-Georges Clouzot. Por ter produção francesa, a fita vai representar a França na candidatura à selecção do Óscar de Melhor Filme Internacional. Depois de ter estado preso entre 2022 e 2023, Panahi viu recentemente o governo iraniano levantar a proibição de rodar filmes (embora nunca tenha deixado de os fazer, clandestinamente) e de viajar, mas disse numa entrevista antes da estreia mundial de Foi Só um Acidente em Cannes, que continuava a trabalhar em segredo e com “uma equipa e um elenco muito reduzidos”.
Foi Só um Acidente apresenta-se como o filme mais explícito, mais “militante” e mais indignado de Jafar Panahi contra a teocracia que governa o Irão, e ao derrube da qual, inclusivamente, o realizador de O Círculo, Táxi e Aqui Não Há Ursos apelou, durante o Festival de Cannes. Rodado com um elenco quase totalmente composto por actores não-profissionais, o filme centra-se em Vahid, um mecânico que julga reconhecer, num homem que atropelou um cão quando seguia de carro com a família e vem à sua garagem pedir para reparar o veículo, Eqbahl, o seu torcionário da altura em que esteve preso, e que o deixou em sofrimento físico permanente. O ranger da perna postiça do homem, um som de que nunca mais se esqueceu, fez com que Vahid o identificasse.
O mecânico mete-se na sua carrinha, segue o homem, ataca-o e rapta-o, rumando para uma zona desértica onde pretende enterrá-lo vivo, como vingança de todos os horrores que ele lhe fez passar. Só que o raptado diz que não é o torcionário, que não faz a menor ideia do que Vahid está a dizer ou de quem está a falar, que perdeu a perna num acidente recente e não na guerra na Síria, como sucedeu a Eqbahl, que tem uma mulher grávida, quase a dar à luz, e uma filha pequena às quais tem que prover, e que nunca fez mal a ninguém. A dúvida começa a assaltar Vahid, que tem então uma ideia para conseguir a identificação definitiva daquele indivíduo que prendeu, vendeu, meteu numa cova e está já parcialmente coberto de terra.
Pega então nele, mete-o de novo nas traseiras da carrinha e regressa a Teerão, onde contacta um amigo, um livreiro ligado à oposição ao regime que esteve preso com ele e também sofreu às mãos de Eqbahl. Este recusa identificar o homem e está contra a vingança pensada por Vahid, mas indica-lhe uma amiga que também foi torturada por aquele, Shiva, uma fotógrafa. Esta está a fotografar um casal que vai contrair matrimónio dentro de dias, e a noiva, Goli, esteve igualmente presa e foi seviciada por Eqbahl, mas nenhuma das duas arrisca uma identificação sem a menor dúvida. Vão então todos na carrinha, mais o aflito noivo, à procura de outra pessoa, Hamid, que esteve também na situação deles.
Hamid, que ferve em muito pouca água, perde a cabeça quando vê o sequestrado, que para ele é Eqbahl sem a menor dúvida, e quer fazer justiça pelas suas próprias mãos, chegando mesmo a tentar fugir com a carrinha de Vahid. A confusão e a discórdia instalam-se entre o pequeno grupo, tanto mais que o raptado continua a negar peremptoriamente ser Eqbahl e a rogar que o libertem e devolvam à família, que deve estar já preocupada com a sua prolongada ausência. As coisas complicam-se ainda mais quando Vahid atende uma chamada no telemóvel do homem. É a filha pequena dele, a chorar e em pânico, a chamar pelo pai e a dizer que a mãe desmaiou, não dá acordo de si e o bebé pode estar para nascer. O que fazer? Ignorar o apelo da menina, ou ir ajudá-la e levar a mãe para o hospital?
Tendo uma acentuada dimensão de farsa negra, de tragicomédia crescentemente desesperada, Foi Só um Acidente é um filme cheio de raiva, de dor e de revolta, como nunca antes se viu antes numa realização de Jafar Panahi. E que são não só a raiva, a dor e a revolta do cineasta, como também representam a raiva, a dor e a revolta do povo iraniano em relação ao opressivo regime dos mollahs. Através do dilema moral posto a Vahid e ao pequeno grupo que o acompanha – arriscarem matar um inocente para satisfazerem o desejo de vingança e ficarem para sempre com a dúvida na consciência, ou tornarem-se tão cruéis e desumanos como o torcionário, no caso de se confirmar que o homem é mesmo Eqbahl e o eliminarem –, Panahi reflecte sobre a possibilidade do perdão a quem nos faz mal, e a legitimidade da vindicta. Um dilema que fica no ar mesmo até ao último plano de Foi Só um Acidente.
Domingo _18:: JUSTA
Domingo _18:: JUSTA, Teresa Villaverde M/12, 108'
Com Ricardo Vidal , Madalena Cunha , Betty Faria , Filomena Cautela
Em 2017, um incêndio deflagrou em Pedrógão Grande (distrito de Leiria), causando a morte a 66 pessoas e provocando enormes danos materiais, tornando-se o mais mortífero alguma vez registado em Portugal. O fogo, que teve início às 14h43 do dia 17 de Junho, na localidade de Escalos Fundeiros, alastrou-se rapidamente pelos concelhos de Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos. Ao cair da noite desse mesmo dia contabilizavam-se já 19 vítimas mortais, número que viria a ser actualizado nas horas e dias seguintes, atingindo 66 mortos e 253 feridos, além da destruição de cerca de 500 habitações e 50 empresas.
Este trágico evento abalou o país e deixou muitas famílias destroçadas. É neste contexto de devastação e dor que acompanhamos várias personagens no seu esforço em recuperar algum sentido de normalidade.
Justa: Teresa Villaverde na idade maior
Ouve-se tanto quanto se vê — a gravidade e a morosidade dos adultos, Betty Faria cega, Ricardo Vidal queimado, Filomena Cautela médica e sem-abrigo afectiva, e o grito e a rebeldia dos adolescentes.
Connosco desde 1991, desde A Idade Maior, Teresa Villaverde chega, com Justa, a partir de quinta-feira nas salas, ao seu momento mais radical. Porque é o seu filme mais despojado. É o ponto de maior simplicidade, de resplandecente minimalismo, enquadramentos e poética, como só ela, de uma intuição certeira. Coisa límpida, pulveriza arabescos. Mas é um filme que se ouve tanto quanto se vê — uma catatonia, entre o sotto voce ou a gravidade dos adultos, Betty Faria, cega, Ricardo Vidal, queimado, Filomena Cautela, médica e sem-abrigo afectiva, que comoventes figuras são!, e o grito e a rebeldia dos adolescentes, Madalena Cunha e Alexandre Batista, traumatizados que se revoltam contra aquilo que viram e ouviram.
É o mais belo mosaico do cinema da realizadora de 59 anos. É a sua idade maior, este filme.
O que tinha de lhes acontecer, às personagens, já lhes aconteceu antes de Justa começar: os incêndios florestais que devastaram Portugal em 2017 de que eles, como se diz, são "sobreviventes". Estão queimados, estão perdidos, estão sós, e como isso mete medo.
Não se atém, Justa, a contar a vida como uma sucessão de episódios. Naquilo que passou a individualizar as personagens, um tempo sem tempo, solidões que se amparam e se reconhecem, porque são solistas à procura da partitura e da orquestra, o filme observa-as e está junto delas; apenas — sem ponta de distância clínica; mas observá-los é a justa forma de fazer com eles Justa.
Teresa Villaverde apura o seu reposicionamento de realizadora que se salientou já logrado em Colo (2017), filme sobre a crise na família — mais profunda, e mais inominável, do que a "crise económica". O cinema refreava-se aí, impedido de transbordar à custa das personagens. Até mesmo na impressão difusa de "filme de terror", porque Colo também era um filme sobre um apartamento que parecia ter vida própria e autónoma dos seus ocupantes, Justa é um digno sucessor: um "horror de câmara", um horror mental, sugerido mas não escamoteado porque o fora de campo se enche de imagens de corpos a derreter no alcatrão, de caixões vazios e de cinzas.
Por reposicionamento queremos dizer que a realizadora se vem afastando do grito dilacerado de Três Irmãos (1994), de Os Mutantes (1998) ou de Transe (2006), em que o seu olhar coincidia com o dos jovens protagonistas, e, aproximando-se do mundo dos adultos — como já nos menos conseguidos Água e Sal (2001) e Cisne (2011) —, trabalha a contenção, a gravidade.
Os protagonismos são também difusos, esquinados, e não uma forma de reivindicação. Justa é o título e é o nome de uma personagem jovem interpretada por Madalena Cunha. Mas ela é tanto a protagonista, ou se o é também o são Elsa (Betty Faria), Mariano (Ricardo Vidal) — que vozes! — ou a médica (Filomena Cautela), quanto um espelho reflector da tragédia. Exactamente como em A Idade Maior, o outro expoente da filmografia da realizadora, em que o protagonista aparentava ser o miúdo Alex (Ricardo Colares), mas só na aparência porque, embora lhe coubesse o tempo de ecrã, o filme era narrado por Alex adulto, homem, e no mosaico de personagens cabia o mundo lunático de Bárbara (Maria de Medeiros) e a história de amor e morte dos pais de Alex, interpretados por Joaquim de Almeida e pela saudosa Teresa Roby.
Justa não "conta" nada. É um filme pós... Tudo se passou já. Mas é pleno de emoção. E de pedagogia. A forma como aqui se cuida de Ricardo Vidal, ele próprio um sobrevivente de um acidente que lhe deixou o corpo amputado e desfigurado pelo rosto, e assim se obriga gentilmente o espectador a lavar, educar o seu olhar, é notável.
Justa instala-se num tempo particular sem narração, musical, e é viciante. Queremos voltar a ouvi-los, Betty Faria, Ricardo Vidal, Filomena Cautela (que surpresa de actriz!)... e a Dança Húngara nº 4, de Brahms.
Domingo _ 25:: ONDE ATERRAR
Domingo _ 25:: ONDE ATERRAR, Hal Hartley, M/12, 75'
Com Jennifer Stepanyk , Robert John Burke , Gia Crovatin , Bill Sage
Joe Fulton (Bill Sage), realizador famoso já reformado, decide preencher a vaga de ajudante de jardineiro no cemitério local para ocupar o tempo e estar mais ao ar livre. Essa decisão inusitada, aliada às suas constantes reflexões sobre a morte e à redacção de um testamento, leva as pessoas que o amam a suspeitarem de que terá recebido o diagnóstico de uma doença terminal. A preocupação transforma-se em rumor e, rapidamente, passa a ser tomada como facto, levando amigos, familiares e conhecidos a prepararem-se para uma despedida antecipada.
Com argumento, produção e realização de Hal Hartley, este drama explora o luto antecipado e a inquietação humana perante a ideia da morte.
Hal Hartley, uma das lendas do cinema independente dos EUA, realiza uma fina, espirituosa e económica comédia de equívocos nova-iorquina.
Hal Hartley não fazia um filme deste Ned Rifle, de 2014, e este Onde Aterrar é uma fina, espirituosa e económica comédia de equívocos nova-iorquina, em que Bill Sage interpreta Joe Fulton, um famoso realizador de comédias românticas que está semi-reformado e decide ir trabalhar no cemitério da igreja próxima de sua casa, para dar ocupação às mãos ao ar livre, bem como fazer o testamento. A namorada, os familiares e os amigos julgam então que ele vai morrer, e a confusão instala-se. Em apenas 75 minutos, com uma câmara digital e meios exíguos (parte da fita foi rodada na sua casa em Nova Iorque), sentido de humor e veia irónica, e recorrendo a actores velhos conhecidos da sua filmografia, Hartley, uma das lendas do cinema independente dos EUA, diz mais, e de forma despretensiosa, sobre o sentido da existência, a morte, a religião, as perspectivas de futuro da humanidade e do cinema (irá tudo parar à Netflix?) e as peculiaridades das relações familiares e sentimentais, do que outros cineastas em duas horas ou mais (até ficamos a saber a melhor e mais rápida forma de tirar sacos de plástico presos nos ramos das árvores). Não se esquecendo de gozar com uma certa elite bem-pensante urbana americana, com os autores de livros “sérios” e presunçosos sobre figuras do cinema como ele, e com a omnipresença das séries de televisão para as plataformas de streaming.
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